segunda-feira, 17 de novembro de 2008

35 Anos!!




Meus Queridos!!!

Exatamente há 35 anos - 11 de setembro de 73 - esse locutor que vos "fala", então com 22 - pouco mais que um garoto, desembarcava nessa terra de Dom Bosco onde correm "rios de leite e mel", experimentando uma estranha sensação que mesclava susto, abandono, desafio, deslumbramento, insegurança e a certeza de que minha vida mudaria para sempre.

Tudo começou alguns meses antes (outubro de 72, talvez) quando, depois de caminhar mais de meia hora num sol quente pacas, ao chegar em casa, vindo da UFMG/Icex - calouro de engenharia civil - morto de fome e cansaço, me deparei com folhas de jornal espalhadas pelo chão de taco recém encerado pelo capricho de minha Mãezinha e, numa delas, estampado o resumo do edital do concurso do Banco Central do Brasil. Eu não tinha a mínima idéia do que pudesse ser o tal Banco Central mas a minha perspicácia de mineiro antenado me dizia que era algo bom pois era banco e era central, mesmo sendo do Brasil. Ali estaria certamente uma boa oportunidade. Me agachei, li o dito cujo, tirei a régua da pasta (típica de calouro de engenharia) e recortei o anúncio. Mas tava com muita fome prá pensar naquilo. Entreguei o recorte prá mana Lulu (Maria de Lourdes) e pedi que me devolvesse mais tarde pois Eu não agüentava fazer mais nada antes de comer. Ia direto prá cozinha pegar o rango.

Aí vem a parte intrigante da (minha) história. Lulu, decerto por não perceber bem a importância da missão que lhe fora confiada, guardou o papel numa gaveta e se esqueceu. Eu, de bucho cheio, não tinha nenhum motivo prá me lembrar. Dias depois por alguma razão o assunto voltou à cachola e quando a Lulu, cobrada, me devolveu o recorte constatei que o período de inscrições já havia passado. Fiquei meio grilado mas “larguei prá lá” porque nem Eu entendia bem o alcance daquela possibilidade.

No dia seguinte fui normalmente prá Universidade e no trajeto de cinco ou seis quadras que fazia a pé, no centro da cidade, após descer do ônibus que me trazia de casa até o ponto do que me levava para a UFMG, passei, como sempre, defronte à sede do BC. Devo esclarecer que só depois de ter lido o edital no jornal, dias antes, foi que percebi o austero letreiro de metal luzidio “Banco Central do Brasil” naquela fachada. Até então não tinha me dado conta e nem o trabalho de ler aquilo. Naquele dia passei e olhei para o blindex quase transparente e percebi que havia uma folha de papel pregada pelo lado de dentro. Me aproximei e .... tava lá: o prazo do concurso fora prorrogado e findava no dia seguinte. Não fui à escola. Dali mesmo voltei prá casa, descolei uma grana com Mamãe e me mandei prá rodoviária.

Viajei a noite toda... doze horas de viagem.

Era dezembro e chovia pacas nesta terra. A manhã estava encharcada. Entre o pagamento da inscrição, preenchimento e entrega da ficha e demais procedimentos, sempre andando a pé, gastei quase o dia todo. Por volta das dezesseis horas, “molhado que nem um pinto” me mandei prá rodoviária. Chegando ao guichê falei pro atendente: “uma prá BH, hoje, na janela”. O cara sonolento, entre bocejos, me disse sem rodeios que não tinha mais nenhuma passagem .. nem janela nem corredor. Véspera de Natal, todas as passagens já haviam sido vendidas inclusive dos dois ônibus extras que a Transbarreira havia colocado. De nada adiantou minha “choradeira” e minha história triste. Não havia mais lugar nos ônibus. Só no dia 26. Fiquei meio zonzo. Ia passar o Natal sozinho e longe de casa.

A ficha demorou a cair. Quando a zonzeira passou veio a luz: será que o Élcio ainda era o gerente da LTB - Páginas Amarelas, empresa onde Eu havia trabalhado, e que fora transferido para Brasília pra chefiar o escritório recém inaugurado? Prá saber só indo lá. Apesar do cansaço, botei sebo nas canelas e pouco depois estava no décimo-segundo andar do Edifício Seguradoras, no SBS. Falei com a secretária e rapidinho Ele, muito alegre e falastrão como sempre, me recebeu com sorrisos e cafezinho. Expliquei minha dificuldade e, bem no seu estilo direto, demonstrando poder, ligou pro gerente da Transbarreira e descolou minha passagem na hora. Fiquei de queixo caído e agradeci o quanto pude. “Que nada, disse Ele ...peraí que não acabou.” Em seguida chamou um auxiliar e mandou que fosse à rodoviária buscar minha passagem que já estava prontinha só esperando alguém ir pegar. Em vinte minutos ela estava no meu bolso. “Ele era o cara”. Papo vai, papo vem, fechamos o escritório e fomos tomar um chopinho num buteco no térreo do prédio. Ele pagou a conta pois minha grana estava contadinha.

Às vinte em ponto, o ônibus encostou e Eu já meio “chapado”, subi a escada e me esborrachei na poltrona. Acho que era a de número 42, ao lado do sanitário mas nem percebi o cheirinho característico. Acordei quando o ônibus fez uma curva fechada já entrando no anel rodoviário de BH próximo da pracinha São Vicente.

Nunca mais vi nem falei com o Élcio. Dívidas de gratidão não se paga nem vivendo cem anos.
Da minha Mãe não consigo falar....encerar o chão e botar jornal.... Lá se vão vinte anos sem Ela....Chorar alivia a alma....

É isso!

Antonio Denis Rocha
Servidor do Banco Central do Brasil..... só até fevereiro de 2009.

Um comentário:

Carolina disse...

Excelente texto, é muito gostoso ler
histórias interessantes assim, ainda mais vindo de pessoas tãos próximas!!!